A flecha arquetípica e os seus alvos de hoje
Por Gilvaldo Quinzeiro
Ao olharmos para o palco da guerra entre os Estados Unidos, Israel vs. o Irã, podemos até nos orgulhar de pertencermos a um lado ou a outro, e festejarmos a cada jato abatido nos ares ou a cada alvo destruído em solo: Viva! Menos um! Porém, pensando bem ou melhor, pensando criticamente, estamos todos sendo derrotados!
Iremos tentar explicar as premissas acima, fazendo uma visita aos cenários das antigas batalhas, tais como as travadas entre os romanos e os cartagineses.
Os confluído atuais, tal como os que mencionamos, são de um certo modo, a atualização do ódio dos nossos ancestrais, que nunca foram digeridos por estes, de sorte que, filogeneticamente falando, não só o herdamos, assim como se herda uma doença hereditária, que atinge geração após geração, como o atualizamos, o sofisticamos o palavrisamos. Mas o dito aqui não é sobre comer pipocas, por isso soará um tanto estranho para alguns...
A propósito, por falar em atualização, essa é a frase de Napoleão Bonaparte a ser repetida como refrão nos dias de hoje: "jamais interrompa seu inimigo quando ele estiver cometendo um erro."
Pois bem, o ódio não é apenas um sentimento, mas uma espécie de combustível fóssil psíquico. Ele permanece latente até que o "novo discurso" forneça a faísca. O que muda é a tecnologia da flecha (do bronze ao algoritmo), mas a vibração da corda do arco que a dispara é a mesma.
Em certo sentido, as guerras de hoje nada mais são do que alvos atingidos pelas flechas incendiárias arremessadas de outras épocas. Nós somos seus cavalos de batalhas, orgulhosos dos nossos sotaques ou da cor dos nossos olhos em comparação com a dos nossos inimigos.
Por que a flecha de um soldado há milênios ainda nos alcança? Porque o alvo nunca foi o "inimigo" externo, mas a projeção das nossas próprias sombras. Como assim? Vamos explicar isso em três pontos:
1 - O Ego a Serviço do Espelho: O caçador ancestral precisava abater a presa para a sobrevivência física. O homem moderno, capturado pelo espelho, precisa "abater" a imagem do outro para sustentar a própria identidade.
2 - Contemporanização: As guerras de hoje são a tradução técnica de arquétipos antigos. O ódio atua como uma força gravitacional porque ele simplifica a complexidade do ser. É mais fácil ser um "guerreiro" em uma guerra herdada do que um indivíduo em busca de cura; da cura das suas feridas herdadas ou das cravadas por si mesmo.
3 - As batalhas contemporâneas conquistam nossos corações porque elas oferecem algo que a modernidade líquida nos tirou: pertencimento e propósito, ainda que através da destruição. O coração se sente "vivo" no calor do combate, mesmo que esse calor seja o de uma febre que consome o organismo.
Por fim, é bom começarmos este sagrado Sábado de Aleluia, não só refletindo acerca do seu significado em termos de celebração como um evento registrado desde milênio em nosso calendário, mas sobretudo, evitando na prática sermos “ possuídos” pelo ódio ancestral ao arremessar as flechas que hoje nos atingem para os alvos futuros!
Amém?
